(Espinosa) O lugar onde vivo – Conversa com a Rua – Olimpíada de Língua Portuguesa 2019

Olá pessoal, Este é um vídeo-crônica muito especial, pois foi feito à pedidos; e é direcionado a uma galera importante pra mim: às e aos estudantes espinosenses, especialmente aos alunos da Escola Estadual Comendador Viana, uma escola do coração, da qual fui aluno na minha infância, e que me influenciou enormemente a ser a pessoa-cidadão que sou hoje Agradeço o convite feito pelas amigas Jânia e Anézia, professora de português que, juntamente com as professoras Ana Carla, Renata e Rita, vão conduzir oficinas em preparação para as Olimpíadas de Língua Portuguesa

Ali os alunos irão desenvolver o tema “O lugar onde vivo”, que “tem como objetivo lhes propiciar estreitar vínculos com a comunidade e aprofundar o conhecimento sobre a realidade local" É um prazer e uma honra poder contribuir Espero que gostem e que possam tirar algum proveito Se gostarem do vídeo, lembrem-se de curtir e compartilhar Inscrevam-se no canal, enviem seus comentários e contem comigo nessa jornada com as palavras, a comunicação, as histórias, os sonhos e a realização

Desejo foco, inspiração e sucesso para vocês Foi à tardinha, que conversei com a Rua, pois, de certa forma, não havia outro ninguém com quem Também pela familiaridade e porque o sol já estava frio Ninguém aguenta bater papo debaixo de sol quente em Espinosa; melhor à sombra das Gameleiras do Comendador, dos Fícus da Praça ou de arvoredo que ainda sobrou na beira do Rio Verde; ou então esperar o friozinho acanhado das manhãs de inverno, que aí o sol fica pianinho pra uma conversa boa Mas foi à tardinha

E nem sei se posso chamá–la de Rua Pelo conhecimento de longa data, talvez posso tratá–la carinhosamente por “Ruazinha”, ou até “Ruainhazinha”, já que no ‘Nordimimas’ a gente tem essa mania de duplicar o diminutivo, transformando pequeninho em pequenininho Ou ainda, chama–la até de Beco, por sua finura e curteza, mas esse termo, já o usaram tanto para fazer desfeita às vielas – Beco dos ‘Bêbo’, do Rato, do Maribondo, e por aí vai – que até magoa Talvez seja melhor deixar o título pra lá, pois, quando conversei com ela, nem pensei em nome, só soltei o verbo, assim como a gente faz com os íntimos Mas, pra não fatigar sua curiosidade, o nome que deram pra rua do fundo da minha casa foi “Osório Salgado”, um senhor que – perdão aos familiares – por meu parvo interesse e desvairada imaginação, neste caso particular, não passaria de um mascate que vendia tudo pela hora da morte, ou talvez um marido cuja esposa exigente vivesse a lhe lamber a carcaça suada antes de manda–lo tomar um banho

Pois bem, conversei com a Rua E foi mais ou menos assim: – Como é que ‘cê fez pra virar rua? – Como assim, menino? – ela retrucou – Não é assim, como você ganhou o título de Rua, sabe? Quero saber é como é que você surgiu do nada, do meio do mato que devia haver aqui? – Ué – me respondeu um tanto alheia, cansada da minha pergunta comprida e olhando para uma meia lua perdida no alto do céu, como se tivesse me mostrando seus interesses elevados – primeiro, abriram trilha no meio do mato, nessa urgência que as pessoas têm de ir de um lugar pro outro, procurando novidade, depois voltando pra contar pros que ficaram, depois retornando pra proteger o achado, depois voltando pra buscar apetrecho, retornando pra trazer parente, e assim num constante vai–e–vem típico de gente indo atrás de gente Logo, virei caminho de terra batida, depois estrada Não demorou, me cercaram de um lado e de outro

E num instante ergueram a primeira casa – Sim’ – a interrompi, pois vi que quem estava encompridando mesmo era ela que já tinha me dado um bloco inteiro de palavras – mas por que você não parou por aí e permaneceu uma casinha branca à beira da estrada encostada em um flamboyant, como na pintura lá de casa? – Porque o povo tem essa premência de ir se juntando um ao lado do outro, talvez por solidão, ou buscando conveniência, de troca–troca, de amparo, de proteção, de prosa e até de bisbilhotice, né?’ Tomei o “né” como uma censura e me calei Desci da escada onde estava sentado e fiquei de pé nos paralelepípedos, meio emburrado, olhando para a minha fachada preferida

– Não vai perguntar mais? – me surpreendeu, ela – Perguntar o quê? – fui desatando minha careta – Qualquer coisa; gosto das suas palavras – essa sua atitude, de vir dialogar comigo’ – Também gosto das suas – o afeto saltou à minha tona – Sabe? Te acho muito bonita; as diversas formas e cores nas fachadas, os muros e esquadrias de todas as idades, o quarteirão comprido aprumando as perspectivas, sua largura aconchegante do tamanho da gente, combinando com as calçadas estreitas, imitando passarelas por onde ocasionalmente vêm desfilando espinosenses, que sempre cumprimentam a gente ao passar; gosto dessa proximidade que você propicia, e gosto das escadas altas, como arquibancadas

E ainda caio de amores por este tesouro de fachada neoclássica, com direito a colunas, capiteis e frontão, que aproxima toda a distante fantasia das histórias infantis que escolheram nos contar’ A rua abriu um sorriso largo, por onde comecei a caminhar até percorrê-la por inteiro, verificando cada palavra expressada O tempo passou, e sempre que volto, bato um papo com as ruas de Espinosa Nunca me esqueço daquele colóquio: – Gosto das suas palavras – Também gosto das suas

Revivo a pujança que as palavras nos dão As fachadas das ruas de Espinosa estão cheias de palavras Basta olhar, apreciar, questionar, imaginar Na verdade, estão por todo o lugar Espinosa é palavra, você é palavra, eu, nós somos palavras, o mundo é palavra Delas somos ricos, multimilionários Através delas temos tudo Tenho Espinosa e as ruas, tenho o Comendador e a lua

É verdade que também tenho a distância, tenho a falta e a saudade Contudo, tenho força, movimento, ação, busca, companhia – palavra esquecida por cidadãos desatinados, como reclamou, a pequena via Então – faço questão – tenho vocês, caros conterrâneos, e nossa língua mãe, o adorável português E sobretudo, a liberdade, que as palavras me oferecem Com elas, vou ao seu encontro, de mente e peito aberto, pronto; me pergunto, quem são vocês, quais os seus mistérios, suas histórias e sonhos, quais palavras vislumbram em seus dotes particulares, combustível para inúmeras viagens? Sim, pois articulando palavras, me direciono a vocês, envio minha mensagem na garrafa, no grande mar do sertão

Quem a resgatará? Entenderão, se identificarão? Pois dúvida também é palavra, assim como incomunicação E o silêncio, com que vos deixo, que é falta de som, mas não necessariamente de palavras